Camadas conflituais e pinturas por vir

O impressionismo é um movimento artístico, sobretudo da pintura, que busca capturar as coisas como elas se mostram; academicamente o movimento fora combatido, uma vez que suas expressões, muitas vezes, vinham carregadas de elementos que em alguma medida sujavam de subjetividades a limpidez da pintura, como gostaria talvez um certo pendor positivista que imperou no pensamento do século XIX.

Dentro do impressionismo, uma técnica muito utilizada se chama impasto, que consistia em lançar sobre a tela, camadas espessas de tinta para criar condições de profundidade, estabelecer expressividade nas obras, mantendo as rugosidades e identidades, tanto do pintor, como das ferramentas de trabalho; efeito que colidia ante as ideias de pureza advindas do ar cientificista do tempo em que surgia. Luzes e sombras, bem como, um certo híbrido entre pintura e escultura, acompanham as características do impasto.

A gestão de conflitos é uma prática interdisciplinar, portanto, híbrida, que se forma por contornos e tons advindos de várias áreas de saber, formada pela fusão entre o conflito e as várias hipóteses de reinvenção que ele permitirá.

Decisivamente, os conflitos e a interdisciplinaridade têm em comum a necessidade do outro: seja uma visão outra ou outra a disciplina. Neste sentido, magnetizadas pela alteridade, gestão de conflitos e interdisciplinaridade trazem em si suas estórias próprias, marcas, esquecimentos, pinceladas, ou seja, a pele na qual habitam, possuem em si mesmas suas esculturas singulares.

O encontro que vislumbramos entre a técnica do impasto, se mostra, pois, como os conflitos, se apresenta em camadas, várias, (in)-visíveis e que comportam a marca de quem as constitui. O impasto significa levar em consideração a mistura, das tintas, das formas e espessuras, dimensão tão afeta aos conflitos, todos eles advindos das mais variadas misturações, cada qual apresentando suas variações singulares.

Assim como a interdisciplinaridade, crítica à disciplinaridade, que determina apenas uma percepção das coisas, o impasto empresta a chance de alargar a fronteira da interpretação, uma vez que nela, por vezes, se confundem pintura e escultura; misturam-se a obra e o artista, denotando a chance de colocar na cena os afetos e sentimentos.

Por essa via, o impasto se aproxima da gestão de conflitos, tendo em conta que gerir conflitos implica a necessidade de se considerar não apenas os afetos, mas também, as afetações e afecções das pessoas ali envolvidas; e essa técnica tem como um de seus elementos a possibilidade de expressar contornos imprecisos, tornar visíveis as diversas texturas e camadas, que surgem metaforicamente como as próprias emoções, segredos e hipóteses que correm por debaixo e dentro dos conflitos da vida cotidiana de cada pessoa.

De Van Gogh a Renoir, o impasto se deu como técnica que empresta profundidade e movimento, traz à baila então uma espécie de dimensão de mundo que restava fora em pinturas de toque mais límpido; na mesma direção, gerir conflitos significa trazer para dentro da tela, impressões as mais variadas, de modo a construir um sentido, não único, mas singular o bastante para que os envolvidos possam se ver nele; como obras de arte de si próprios, que pela sua intensa marca subjetiva, nos doam um mundo não sabido, com cores e formas ainda por inventar – ou já nomearam todas as estrelas de Van Gogh?


Coluna Gestão de Conflitos e invenções

Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutor em Teoria do Direito pela PUC/MG com estágio de Pós doutoramento na FDV/ES. Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor do Mestrado em Gestão Integrada do Território e do curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor e Mediador do Instituto de Mediação Aplicada – IMA. Instagram: @‌bernardogbn