Tudo que cala fala mais alto ao coração

por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Picasso foi interrogado, dentro de sua casa, acerca de sua obra Guernica; o soldado nazista pergunta em tom severo se ele havia feito isto, apontando para o quadro. Picasso responde: não!, vocês fizeram isso.

A obra foi pintada como protesto por conta de um bombardeio levado a cabo por aviões alemães que apoiavam a ditadura de Franco durante a guerra civil espanhola.

Essa passagem histórica pode dialogar de maneira interessante com a tese de um autor italiano, Giorgio Agamben, acerca da figura do autor. Para este pensador, em diálogo com Michel Foucault, o autor habita seu texto como uma espécie de gesto, entendido o gesto, como algo que permite a existência do texto, sua escrita, estilo, ao mesmo tempo em que reconhece sua limitação em face do que expressa. Um texto nunca consegue alcançar tudo o que desejaria dizer.  

Esse duplo gesto é interessante para pensarmos os conflitos, pois, se de um lado, quem entra em um revés com outra pessoa, está ali por conta de um gesto seu, de outro, seria também importante reconhecer que junto da ação da pessoa, habita também seus silêncios e interditos, seus medos, sua história, memória e ausências; junto disso tudo, se achegam as intepretações dos outros, que também fazem parte do conflito instaurado.

Logo, para além dos julgamentos antecipados que costumamos proferir em face de um gesto, talvez essa reflexão nos ensine sobre a necessidade de escutarmos o conflito para adiante daquilo que supomos saber, quer dizer, a nossa percepção do gesto é apenas uma das tantas camadas que formam um conflito.

Do mesmo modo que o gesto do autor faz com que a obra exista, o gesto das pessoas faz com que o conflito apareça; entretanto, como um ato mágico, podemos aprender com Agamben, que o gesto do autor não se confunde com seu texto, tampouco, o gesto da pessoa que instaurou um conflito pode ser com ela confundido.

Tanto os textos, quanto as pessoas, são existências incompletas que necessitam do outro para viver. O texto necessita ser lido para viver. O humano necessita ser ouvido para viver. Ambos, gestos incompletos.

Picasso ao responder à pergunta do oficial, nos doa a oportunidade de sabermos que por vezes, ao pré-julgarmos um gesto, acabamos por executar uma sentença redutora, uma vez que não importaria quem pintou Guernica, mas sim, quais os motivos levaram Picasso a pinta-lo.

Gerir o conflito pode se tratar de saber perguntar por suas razões, quiçá, sejamos mais acolhedores com os gestos alheios e com nossos próprios fantasmas, aqueles que se tornam textos e os quadros que só (não)pintamos em silêncio.


Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutor em Teoria do Direito pela PUC/MG com estágio de Pós doutoramento na FDV/ES. Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor do Mestrado em Gestão Integrada do Território e do curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor e Mediador do Instituto de Mediação Aplicada – IMA. Instagram: @‌bernardogbn