Trocando peles de conflitos

Como de praxe, falaremos de gestão de conflitos. Desta feita haverá um diálogo interessante que se inicia com um dos afro sambas de Baden Powell e Vinicius de Moraes, o conhecido Canto de Ossanha. A outra convidada é a filosofia das macumbas de Luiz Antônio Simas e Luiz Rufino. Teremos como cenário, o Canto IX da Odisseia de Homero, que é um dos episódios mais conhecidos da literatura ocidental. Nele, o herói Odisseu (Ulisses, na tradição latina) começa a narrar em primeira pessoa suas aventuras após a queda de Troia.

Odisseu encarna uma figura importante da gestão de conflitos, ele é o narrador de si. Conta muito que as versões sejam permitidas. Muitas das vezes, um conflito é apenas uma acolhida negada. E é exatamente isto que ocorre quando Odisseu chega à terra dos Lotófagos, povo que se alimenta da flor de lótus.

Ao explorar o local, Odisseu encontra a caverna do ciclope Polifemo, filho do deus Poseidon; os ciclopes eram gigantes de um olho só. Quando o dono da casa chega, fecha a porta com uma enorme rocha. Um conflito é também uma porta fechada. Odisseu diz ao ciclope que é divino que se dê hospitalidade, um anúncio do pensamento de Jacques Derrida. O ciclope não dá atenção ao dito, e começa a devorar os companheiros do estrangeiro.

O herói grego elabora um plano para que o ciclope não o devore; oferece vinho a ele, como uma iguaria de seu reino. O ciclope aceita, e ao estar embriagado, pergunta a Odisseu qual seu nome, pelo que, ele responde que se chamava Ninguém.

Quando o gigante adormece alcoolizado, Odisseu e seus amigos aquecem uma estaca e o cegam; ele se levanta desesperado e sai da caverna urrando que o haviam ferido; os outros ciclopes da ilha perguntam, também aos gritos, quem havia feito aquilo, e o ciclope respondia: Ninguém! Ninguém!

Nos ensinamentos hauridos das culturas de terreiros, os conflitos são tratados a partir de manejos que vão desde a ginga, a negociação, os deslocamentos e também os inventos. Nesse caso, o ardil de Odisseu imprime um ensinamento importante, pois, nem a força do ciclope poderia ser bastante para uma invenção, uma trapaça com a linguagem, diria Roland Barthes; quer dizer, o manejo ante o conflito se coloca também em alcançar o inesperado, em se colocar, por exemplo, como uma figura outra ante o ego que deseja vencer.

Se transvestir de Ninguém por vezes é uma hipótese a ser lançada, seja para uma fuga ao mar, uma vez que estavam em uma ilha, seja para que tenhamos a oportunidade de espantarmos as alternativas binárias, que engessam a negociação e impedem que alcancemos a liberdade ou a nós próprios.

De Troia à Bahia, aquele que diz sou, não é, porque que quem é mesmo, é não sou, – onde cabem muitos mares e santos, vive a sabedoria de narrar, que ao mesmo tempo em que inventa mundos e linguagens, permite sempre ao outro e a si, a mudança de posição, opinião e até mesmo, deixar de ser, para que a vida possa fluir e o conflito se transformar.

Gerir conflitos é ir aprendendo os momentos de dizer e ouvir, de sair e chegar, mas também, sobretudo, de aprender a trocar a pele do timbre quando ela já pesa demais e/ou impede cantar ou velejar: “eu só vou se for pra ver Uma estrela aparecer Na manhã de um novo amor.”


Coluna Gestão de Conflitos e invenções

Bernardo Gomes Barbosa Nogueira é Doutor em Teoria do Direito pela PUC/MG com estágio de Pós doutoramento na FDV/ES. Coordenador e Professor do Mestrado em Gestão de Conflitos, Direitos e Humanidades da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor do Mestrado em Gestão Integrada do Território e do curso de Direito da Universidade Vale do Rio Doce / Univale. Professor e Mediador do Instituto de Mediação Aplicada – IMA. Instagram: @‌bernardogbn