CONFLITOS ENTRE AS ESTAÇÕES

Gestão de Conflitos e Humanidades

Por Bernardo Gomes Barbosa Nogueira

Para meus pais e avós, para a Rita e o IMA também.

Colcha de Retalhos é uma guarânia composta por Raul Torres. Essa canção se me achega com toda a afetividade que é possível fazer brotar no ouvido de uma criança que escuta seus avós e pais cantarem. É irremediável, não? Como gostaria o Djavan, e eu também.

A enunciação da canção serve aqui como pretexto para um diálogo muito interessante que apareceu em uma aula no Instituto de Mediação Aplicada (IMA), quando falávamos do trabalho do mediador e da mediadora. Pois, assim como quem tece uma colcha de retalhos, por vezes as pessoas envolvidas em conflitos se encontram em retalhos e, ainda, a própria narrativa acerca dos conflitos, antes de uma elaboração, permanece retalhada, indicando, muitas vezes, desarrumação, que é também um outro nome do conflito.

Portanto, a metáfora da colcha de retalhos nos serve em algumas direções. Primeiro, um conflito pode ser desestabilizador a ponto de as pessoas se sentirem sem chão, ou seja, desabitadas de seguranças e de calor; como se as certezas que as moviam estivessem agora, feito retalhos, espalhadas. Reavivar a narrativa a partir de si pode ser uma das formas de recriar um sentido, ou seja, fazer dos retalhos uma colcha. E o mediador pode colaborar sendo o guia nessa costura de si do conflito, da narrativa que será criada.

Além do efeito retalho que o conflito pode causar, há, em muitos casos, uma ausência de percepção organizada do conflito, de suas causas, origens etc. E, novamente, aparece a chance de coser algo que colabore com essa questão. Quer dizer, a mediação pode ser o ponto que une esses fragmentos do conflito, esses retalhos, produzindo uma colcha, que pode ser então reutilizada em outros moldes ou mesmo descartada; e essa reconstrução é necessária para que se possa tratar o conflito.

Dar nome aos conflitos é uma forma de superá-los, reinventá-los, reinscrevê-los sob outra alcunha, reelaborá-los ou mesmo restaurar os encontros, agora sob outra mirada.

Luis Alberto Warat nos ensina, ainda, que, no processo de mediação, as pessoas envolvidas necessitam estar quentes; e esse ensinamento é muito precioso, uma vez que o desejo na mediação se coloca também com a necessidade de alteração do estado no qual as pessoas se encontram. É necessário que se altere esse estado, ou seja, que haja ebulição, que o quentume do toque possa tornar, para outra dimensão, aquele conflito que até então impedia, reprimia ou interditava a invenção.

Assim, em nossa reflexão, podemos encontrar a mediação em Warat junto da canção de Raul Torres. Ora, se o conflito em retalhos de pouco serve, por outro lado, quando cosido de maneira adequada, empresta-nos exatamente o objetivo de nossa prosa, pois uma colcha de retalhos traz o acalanto da temperatura que retira o frio, aquece, acolhe e muda o estado da relação.

Aquecidos pela colcha, podemos decidir se desejamos nos manter debaixo dela ou se agora ela será uma obra de arte que ficou no passado, quando um dia era apenas retalho.

Gerir conflitos é saber costurar, sejam retalhos, estórias ou viveres, pois sempre há a chance de mudar a temperatura, debaixo de uma colcha ou no aconchego de si mesmo.